A falácia estampada

A falácia estampada

O dicionário esclarece: do latim fallacia, define aquilo que é falaz; engano, falsidade, burlo. Essa é a falácia. Segundo o pensamento do filósofo grego Aristóteles, trata-se de um sofisma: o raciocínio que parece verdade, mas é falso, equivocado.

Isso te lembra algo? A explicação cairia como uma luva para uma porção de coisas no país. Não à toa, a expressão “isso só acontece no Brasil” – a despeito de ser empregada com exageros – tornou-se mais uma de nossas marcas registradas.

Nada, contudo, parece combinar melhor com esse termo do que o sistema político. Não que a desfuncionalidade da política nacional seja novidade, mas, na última meia década, a situação foi alçada a níveis inconcebíveis até para os padrões nacionais.

Temos assistido perplexos a um desfile sem fim de estupidez e disparate que migrou dos confins das redes e sociais e das sombras de mentes extremistas direto para alguns dos mais altos cargos da república. O engodo da vez dessa turma é a requentada proposta do voto impresso.

A tática consiste em espalhar acusações forjadas sob medida para deslegitimar o sistema eleitoral brasileiro – que é reconhecido internacionalmente. Os extremistas têm retórica de sobra e fundamentos em falta, pois sua causa não é nobre: abrir caminho a uma contestação descabida caso o resultado das urnas não lhes seja favorável.

Quando o voto era aberto e seus registros podiam ser checados por qualquer um, o Brasil vivia os primeiros tempos do regime republicano. O sistema se baseava no coronelismo, em que poderosos fazendeiros direcionavam os votos de milhares de pessoas para os candidatos de interesse das oligarquias a que pertenciam, os pequenos grupos privilegiados das classes altas.

Era o voto de cabresto, num esquema desenhado para manter as mesmas elites no poder e perpetuar a situação de atraso na evolução de um sistema político viciado e na diversificação do desenvolvimento econômico do país – que vivia basicamente da exportação de café.

 

 Isso só era possível porque o sigilo do voto era quebrado – e com ele a   liberdade de ir contra as ameaças ou a compra de votos realizadas pelos coronéis ou por qualquer outro grupo poderoso disposto a desvirtuar a vontade do eleitor. É exatamente o que fica em risco com o voto impresso – que, ademais, burocratizaria, encareceria e dificultaria a logística das eleições.

O voto de cabresto obrigava, por meio da violência e de promessa de benefícios, as pessoas a votarem nos candidatos dos coronéis (Imagem: Reprodução/ Prefeitura de Taubaté)

“As urnas eletrônicas ajudaram a superar os ciclos da vida brasileira, que vêm pelo menos desde a República Velha, em que as fraudes se acumulavam”, declarou o ministro Luis Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao atestar a segurança e a transparência do processo eleitoral.

Os tempos da Primeira República (1889-1930) passaram e o voto tem sigilo garantido desde 1932. Utilizada há 25 anos, a votação eletrônica é auditável, com tecnologia e lisura atestadas dentro e fora do Brasil e sem qualquer comprovação de irregularidade em todo esse período. Por violar o sigilo e a liberdade do voto, a impressão foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro de 2020.

De muito maior interesse do eleitor seria vencer o projeto de retrocessos instalado atualmente no poder, que se empenha muito em criar problemas para vender soluções, desviando o foco dos problemas em vez de resolvê-los, e ansioso por nos levar de volta a tempos obscuros há muito superados.

Por Allan Virissimo

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